sábado, 7 de novembro de 2015

Sobre bagagens, excesso e falta



Quando eu tinha 18 anos fui morar na Holanda e como tenho  nacionalidade fui com a ideia de morar lá para sempre, mesmo não fazendo ideia do que iria encontrar lá, fui decidida, não voltaria mais, coisa de pessoa impulsiva e cabeça dura, tenho que admitir...

Junto com esta decisão, veio a decisão de levar todas as minhas roupas, sim, TODAS, e  portanto usar o máximo de peso permitido para a bagagem naquela época, duas malas de 30 kgs cada.

Levei tudo. Se eu tinha roupas boas de qualidade? Não.  Se  eram roupas lindas e diferentes com valor sentimental? Também não.  O que eu tinha era 60kgs de roupas de velhas. Mas eram minhas roupas, tudo que eu tinha e eu era apegada a elas.

Chegando lá não foi nada fácil, pegar trem e depois tram (um bondinho) com 2 malas pesadíssimas, tendo que transportar da plataforma para o trem em tempo recorde antes das portas fecharem...aff...não foi fácil, mas em nenhum momento pensei em me desfazer de nada. Cabeça dura que era...

Voltei ao Brasil depois de 6 meses, trouxe tudo de volta, e devo ter usado durante a minha viagem 20% das roupas. Sim, levei minhas roupas pra passear de avião... e decidi nunca mais viajar com malas tao pesadas. Pelo menos aprendi a lição.

Depois disso acabei sempre pecando pelo contrário, mesmo na minha fase mais consumista, tentava levar pouca coisa quando viajava.

No ultimo final de semana fui pra praia, 3 dias no total, levei uma malinha com 1 biquini, 1 pijama, 3 camisetas, 1 calca de malha e 1 short jeans. Pensei assim, minimalista que sou, um biquíni usa num dia, no outro já está seco, um pijama é mais que suficiente, vou de short jeans e camiseta pra praia por cima do biquíni e vai dar tudo certo.

Não deu.
Primeiro dia fui pra praia como imaginei, biquíni, short e camiseta, tudo perfeito, voltei com tudo sujo e molhado, o tempo virou. Cheguei na pousada e pendurei tudo pra secar. Não secou.

De noite, meu filho derrubou agua no meu pijama, tive que dormir com a calca de malha e camiseta.

No dia seguinte estava nublado, pijama molhado, biquíni molhado, short sujo de areia e molhado, camiseta nr 1 inutilizada. Pronto! Pensei, acabou minha mala. E todo o meu minimalismo que estava me deixando tão orgulhosa foi ralo abaixo.

Estava nublado e um pouco friozinho, tive que colocar biquíni molhado (!!) logo cedo.

Coloquei também o short jeans cheio de areia, molhado e frio (!!!)

E pelo menos uma camiseta limpa.

Passei frio, peguei friagem e voltei da praia com uma crise de sinusite que me deixou 3 dias de cama sem conseguir nem me sentar de tanta tontura.

Lição aprendida?  SEMPRE

Para viajar, pelo menos 2 roupas de dormir, pelo menos 2 biquinis, e levar uma canga ou algo parecido.

Conclusão? Nem tanto ao céu nem tanto ao mar, 60 kgs de roupas é um exagero mesmo que seja para 6 meses, agora também não precisava ir tanto ao outro extremo...

Como bem ensinou Buda, o caminho do meio é sempre o melhor.

Equilíbrio sempre!

E você, já exagerou na mala pra mais ou pra menos? Conta pra mim!



Minimalismo

O assunto deste blog é o minimalismo.



Há mais de 10 anos venho trabalhando constantemente esta idéia de viver com menos.
Tudo que se relaciona a este assunto me interessa pois acredito seriamente que muita tralha pode travar a nossa vida.
Há 20 anos atrás li uma entrevista do Miguel Fabella na qual ele falava que passou uma fase muito difícil na vida, onde parecia que tudo estava travado, emperrado, e ele não via saída para nada, foi quando um amigo sugeriu: "Dá tudo, dá tudo que você tem". E foi isso que ele fez, doou quase tudo que tinha, roupas, móveis, cacarecos, ficou só com o essencial, isso nos anos 90, quando minimalismo ainda não era um assunto "na moda". Ele disse que após essa doação completa e insana, a VIDA FINALMENTE ANDOU. Começaram a aparecer novos contatos, novos contratos e em poucos anos ele não só recuperou tudo, como ganhou muito mais. Esse desapego, esse desprendimento, era o que ele precisava naquele momento. As vezes um apego o qual não nos damos conta trava a nossa vida. O dinheiro é uma força em constante movimento, precisa entrar para sair e assim continuar o ciclo constantemente, e assim é com tudo.
A vida é mudança, impermanência, imóvel é a morte.
Já ouvi falar muitas vezes, de pessoas com doenças terminais que resolvem mudar de vida, doar tudo, ir pra um templo budista ou algo assim, e se curam. Aí se vê a ligação entre o apego e a doença. Normalmente quem se apega a objetos, se apega a pessoas, a sentimentos e até a doenças.
Quantas pessoas conhecemos que tratam sua doença como um ente querido, e quando comentamos por exemplo que conhecemos outra pessoa que se curou de tal doença, a pessoa automaticamente fala: "Ah, mas a MINHA doença é pior, a minha não é igual a dela".
E falam assim com uma propriedade, cuidando, acarinhando a doença, e aquilo vira tão o centro da vida daquela pessoa, que se ela se curar não terá mais assunto, pra que se curar então?

A cabeça da gente é realmente complexa, precisamos tomar cuidado e também não confundirmos posse com apego, existe aquela velha fábula do apego que diz assim:
 Um velho mestre estava caminhando entre as montanhas quando avistou uma castelo muito suntuoso. Resolveu fazer uma visita a aquele rei. Chegando lá, ele ficou estarrecido com tanta riqueza, as paredes eram de ouro, tapetes persas por todos os lados, móveis maravilhoso, louças finas, prataria, tudo muito rico.
E conversando com o rei ele falou: "Não, Vossa Majestade,  não pode ter assim tantas coisas, isso é apego".
Ao que o rei respondeu: "Mas eu não tenho apego, tenho sim minhas riquezas que a vida e meu trabalho me proporcionaram, mas se não as tiver mais não terei medo, estou certo de que nada disso me fará falta, não tenho apego".
Então o mestre falou: "Mas veja eu, por exemplo, só possuo esta roupa do corpo e este velho cajado, que já está comigo há muitos anos e é tudo que eu tenho. Você precisa ser assim, sem bens, sem apegos."
E convidou o rei para dar uma volta pelas montanhas. Foram assim conversando e quando já estavam a certa distância do castelo, o mestre notou que o castelo pegava fogo.
Em desespero ele gritou: "Veja, Vossa Majestade!! O castelo está pegando fogo, está tudo queimando, precisamos voltar!!"
E o rei então respondeu: "Não há mais tempo, até chegarmos lá, já estará tudo queimado, destruído! Mas não tem problema, tudo podemos readquirir, com meu trabalho e força de vontade vou recuperar tudo isso, e como eu disse antes não tenho apegos, são apenas objetos".
E o mestre desesperado: "Não, majestade, nós temos que voltar, temos que voltar."  
E o rei: "Mas porque tamanho desespero?? Não se preocupe, está tudo bem".
E o mestre então falou: "Não, você não está entendendo: MEU CAJADO ESTAVA LÁ!!!"

Portanto não basta simplesmente sair doando tudo que tem, esse é um caminho longo, que pode mexer com coisas não tão agradáveis lá dentro de você, mas garanto que no final vale muito a pena!

E aí? Vamos embarcar no minimalismo?