domingo, 8 de novembro de 2015

Coisas com história, objetos com alma

No auge do meu consumismo, trabalhava como secretária executiva em uma multinacional, usando sempre um terninho e sapatos coloridos combinando com a cor da cada terno em cada dia da semana e por mais invejável que eu parecesse, no intervalo do trabalho invejava a hippie que passava na rua descompromissada de chinelos havianas e bolsa de crochet.
Meu armário estava cheio, era lindo e invejável, e eu além de não ter um estilo definido, me sentia meio Barbie. Hoje sou a Barbie executiva:  terninho, pasta e sapatao de bico fino. Hoje sou a Barbie  preppy: sainha, meia calca xadrez e colete. Hoje sou a Barbie intelectual: óculos, saia lapis e camisa.
Era assim que me sentia, usando fantasia everyday. Gastava 80% do meu dinheiro com roupas, sapatos e bolsas e quando passava a hippie na rua eu sentia inveja, será que amanhã eu deveria me vestir de Barbie hippie???
Percebi que no fundo alguma coisa estava errada
Meu closet era cheio, mas nada tinha minha forma, meu cheiro, meu jeito, nada chegava a envelhecer, pois eu usava tudo um pouco e depois ja comprava outro, um mais moderno, mais na moda.
No escritório que eu trabalhava tinha um senhor responsável pela área de marketing que havia trabalhado sempre em emissoras de televisão, ele tinha por volta de 70 ou 80 anos e usava ternos Ricardo Almeida caríssimos e lindíssimos, perfumes importados, sapatos maravilhosos e estava sempre "na estica". Era um senhor muito elegante de cabelos branquíssimos.
Uma coisa destoava de todo aquele visual moderno e impecável, ele usava uma pasta de couro cor caramelo, dessas modelos artesanais, mais ou menos como a da foto abaixo:



Mas era uma pasta bem velha, desgastada e estava descosturando em alguns cantos, elogiei (mais por curiosidade do que por achar bonita mesmo, queria entender o porque dela estar ali), não que achasse feia, mas me intrigava, ele tinha dinheiro para comprar a pasta mais cara do shopping mas usava aquela, e então ele com toda sua discrição apenas me disse que fora um presente de sua esposa e que havia ganhado há mais de 20 anos atrás (esposa esta também uma senhora idosa, e não uma jovem descartável como ele poderia ter se quisesse dada sua conta bancaria).

E foi assim que por dias eu, quando via aquela pasta ficava viajando nela, pensando quantas historias ela deveria ter pra contar, quantas reuniões, quantas empresas e emissoras de tv ela ja teria visitado, quantas pessoas interessantes, era uma amiga fiel dele, e eu secretamente invejei não ter nenhum objeto "com alma". Tudo meu era descartável e não envelhecia pois eu já trocava por outro, nenhum objeto meu tinha historia, tinha sido meu companheiro de alguma aventura ou tinha me acompanhado por anos, nenhum estava se desfazendo de tanto uso ou teria um valor sentimental tão grande,
eu era superficial.

Esse foi um dos momentos em que começou a brotar em mim a semente do simples, do menos, do ato de ter poucos objetos, mas de qualidade, com alma, com história.

Então passei a comprar menos, mas meus empregos na época exigiam estar impecável, então eu comprava o melhor que meu dinheiro pudesse pagar. Em vez de 3 sapatos comprava 1, mas o melhor, aquele que poderia viver comigo, viagens, aventuras e historias, e que quando eu me desfizesse ele, tivesse criado uma cumplicidade, sentisse dó de jogar fora, tivesse aproveitado ao máximo.

Para ter menos coisas acredito que devemos pensar muito bem antes de comprar, evitar os descartáveis, pois além de não durarem nada tem toda aquela questão de trabalho escravo, meio ambiente e mil outras questões que podemos levantar com a fast fashion...
e acredite é melhor "repetir o bonito que variar o feio" um bom sapato de couro preto vai te acompanhar a semana toda, sempre elegante, seja voce menino ou menina.

Espero ter conseguido passar a minha ideia de objeto com alma, pois acho isso de suma importância no processo de reduzir as coisas.

e voce? tem algum objeto com alma?








2 comentários:

  1. Carol, conheci seu blog pela página do em busca de um armário cápsula. Li os posts que fez até o momento e me identifiquei muito com sua escrita. Também estou em busca de ser mais simples, desapegar das coisas materiais. Em muitos dias me sinto sufocada com todas as coisas que tenho e estou em busca de objetos, roupas etc que tenham alma que não sejam descartáveis. Continue escrevendo. Seus textos fazem bem pra alma.

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